Avaliação global do ensino médico brasileiro: interesses dos atores envolvidos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.18222/eae.v32.7592

Palavras-chave:

Formação Médica, Avaliação do Ensino Superior, Grupo de Interesses

Resumo

O artigo estuda os interesses da corporação médica, da comunidade acadêmica e dos representantes do poder Executivo na estrutura da avaliação sistêmica do ensino médico brasileiro. Mostra-se que a corporação médica tende a apoiar avaliações de viés mais regulatório, contrapondo-se aos interesses da comunidade acadêmica. Argumenta-se que os representantes do poder Executivo sofrem demandas mutuamente antagônicas e que tensionam suas políticas: expandir a rede de ensino médico e regular sua qualidade. Conclui-se que a configuração assumida pelos sistemas de avaliação do ensino médico depende da articulação política dos atores envolvidos, da força das demandas sociais sobre o tema e do equilíbrio entre as prioridades governamentais de expansão do ensino médico e regulação de sua qualidade.

Biografia do Autor

Rafael Barbosa da Silva Bica, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro-RJ, Brasil

Doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor de Clínica Medica pela Universidade Estácio de Sá.  

George Edward Machado Kornis, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro-RJ, Brasil

Doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor Associado do Departamento de Planejamento e Administração em Saúde do IMS/UERJ.

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18-05-2021

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Artigos