Juvenilização da EJA como efeito colateral das políticas de responsabilização

Autores

  • Talita Vidal Pereira Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro-RJ, Brasil http://orcid.org/0000-0002-1442-0124
  • Roberta Avoglio Alves Oliveira Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias; Fundação de Apoio à Escola Técnica, Rio de Janeiro-RJ, Brasil http://orcid.org/0000-0002-5527-1671

DOI:

https://doi.org/10.18222/eae.v0ix.5013

Palavras-chave:

Responsabilização, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Qualidade da Educação, Avaliação da Educação.

Resumo

O fenômeno denominado Juvenilização da Educação de Jovens e Adultos (EJA) é analisado no presente artigo como consequência da expulsão de jovens em defasagem idade-série da escola regular. O pressuposto é que o fenômeno tem se intensificado na medida em que a correção de fluxo tem funcionado como mecanismo de escape, utilizado por gestores com o objetivo de evitar as sanções previstas nas políticas de responsabilização às escolas e aos professores que não alcançam as metas de desempenho estabelecidas pelas diferentes esferas do sistema. São utilizados dados estatísticos sobre o histórico de matrículas na EJA na rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro para sustentar que as políticas de avaliação em larga escala, anunciadas como garantidoras da qualidade da educação, têm favorecido a manutenção de processos de exclusão escolar. Aportes pós-estruturalistas, em especial a Teoria do Discurso, sustentam a problematização de uma concepção instrumental de qualidade.Palavras-chave: Responsabilização, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Qualidade da Educação, Avaliação da Educação. Juvenilización de EJA como efecto colateral de las políticas de responsabilizaciónSe analiza el fenómeno denominado juvenilización de la Educação de Jovens e Adultos (EJA) en el presente artículo en función de la expulsión de jóvenes en desfase edad-año de la escuela regular. Se presupone que el fenómeno se ha intensificado en la medida que la corrección de flujo funciona como mecanismo de escape, utilizado por gestores con el objetivo de evitar las sanciones previstas en las políticas de responsabilización a las escuelas y a los profesores que no alcanzan las metas de desempeño establecidas por las diferentes esferas del sistema. Se utilizan datos estadísticos sobre el historial de matrículas en EJA en la red municipal de enseñanza de la ciudad de Rio de Janeiro para sustentar que las políticas de evaluación en gran escala, anunciadas como garantes de la calidad de la educación, han favorecido el mantenimiento de procesos de exclusión escolar. Aportes post-estructuralistas, en especial la Teoría del Discurso, sostienen la problematización de una concepción instrumental de calidad.Palabras clave: Responsabilización, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Calidad de La Educación, Evaluación de la Educación. Juvenilization in EJA as a side effect of accountability policiesThis article analyzes the phenomenon called Juvenilization in Educação de Jovens e Adultos (EJA [Adult and Youth Education]) as a result of the exclusion of young people with age-grade discrepancy from regular school. The assumption is that the phenomenon has intensified, as the flow correction has worked as an escape mechanism used by managers to avoid the penalties prescribed in the accountability policies for schools and teachers not reaching the performance targets established for the different levels of the system. Statistical data about the EJA academic transcripts from the municipal school network of Rio de Janeiro are used to support the large-scale assessment policies. These policies, announced as guarantors of the quality of education, have favored the maintenance of school exclusion processes. Poststructuralist contributions, particularly Discourse Theory, support the problematizing of an instrumental concept of quality. Keywords: Accountability, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Quality of Education, Education Evaluation.

Biografia do Autor

Talita Vidal Pereira, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro-RJ, Brasil

A pesquisadora é Procientista UERJ/FAPERJ. Doutora em Educação pela UERJ. Professora adjunta na Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ lotada no Departamento de Formação de Professores da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) É professora Permanente do Programa de Pós-graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (PPGECC-UERJ) e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação (PROPEd-UERJ). É líder do Grupo de Pesquisa Currículo: conhecimento & cultura (CNPQ). Integra os Grupos de Pesquisa Currículo, Formação e Educação em Direitos Humanos e Políticas de Currículo e Cultura. Participa da Rede Latino-americana de Teoria do Discurso e do Grupo de Trabalho de Currículo (GT 12) da Anped. É sócia da Associação Brasileira de Currículo (ABdC). Coordenadora do PPGECC/FEBF/UERJ (2014-2017). Mestre em Educação pela UFRJ e Licenciada em Química pela UFRJ. Atuação na Educação Básica de 1985 a 2012. Produção acadêmica orientada principalmente para os seguintes temas: Currículo; Políticas curriculares, Currículo e Avaliação da Aprendizagem, Cultura; Conhecimento, Formação Docente.

Roberta Avoglio Alves Oliveira, Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias; Fundação de Apoio à Escola Técnica, Rio de Janeiro-RJ, Brasil

Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação, Cultura e Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF). Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal Fluminense (2004), com Especialização em Psicopedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2007). Atua como Professora I-Orientadora Educacional da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias/RJ e Orientadora Educacional da Fundação de Apoio à Escola Técnica. Tem experiência na área de Educação, principalmente nos seguintes temas: Alfabetização, Orientação Educacional, Educação Popular, Avaliação da Aprendizagem e Educação de Jovens e Adultos.

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31-08-2018

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Artigos